sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

Diário de uma viuvá rica na Prisão – Dia 3 e seguintes


Dia 3 ao dia de hoje

Querido diário.


Há muito que não te escrevo, mas como te tinha dito, o meu advogado passou por cá, e levou-me a mão, isto é a protese, para arranjar. Agora já não passo a vida, a ter de por óleo.


Mas a espera acabou por ser mais demorada, porque o Zé veio visitar-me, e eu aproveitei, para lhe pedir para me levar a mão a manicure. Como diz o outro, se Maomé não vai ter com a montanha vai a montanha ter com Maomé. Ou será quer ao contrário....não sei, baralho-me sempre nesta coisa. Os árabes são mesmo do piorio.

Estava a falar do Zé e isso é que interessa. Olha, querido diário ele foi um querido. Para começar foi super chique porque chegou tarde e a más horas, e armou uma confusão para entrar. O Zé continua cheio de estilo. Adorei mesmo estar com ele e falar com ele.


Sabes aproveitei para tirar umas fotos e fazer uma entrevista para a Caras. Estas a ver querido diário, como sempre consegui ser capa da Caras, quando tu todo invejoso, dizias que a unica coisa em que eu conseguia ser capa, era no meu proprio diario porque tinha posto la uma foto.


O Zé foi impecável e um querido, trouxe-me uma caixa do meu chá preto de Darjeeling. Vá, assim ao menos vou passar a dormir descansada, porque posso beber o meu chá preto de Darjeeling.


O meu filho, o Davidinho, aquela coisa linda que tu conheces, continua a estagiar na Vougue, em Nova Iorque. Está cada vez mais parecido com o Zé. Assim com muito estilo e glamour, excêntrico, e cheio de tiques.

Sempre disse que fazia bem ao rapaz passar umas noites em casa do Zé. Só o cadaver do meu ex-marido é que se opunha (ih ih...desculpa a piada do cadaver mas não resisti a este pequeno apontamento de humor negro para veres que mesmo na prisão mantenho o meu bom humor)


Sabes que o meu filho até já dá entrevistas e aparece nas revistas e tudo...!Estou muito orgulhosa dele.


No entanto tenho andado triste, com as noticias que vão saindo. A dizer que eu devia dinheiro aos Bancos.

Eu sei que devia muito dinheiro aos Bancos. Mas eu acho que tinha o direito de viver com aquilo a que tenho direito. Como com o meu chá preto de Darjeeling, as minhas férias na casa do Alvor, as minhas roupas da Loja das Meias, as “minhas” jóias de ouro,(pus “ “ porque elas eram de uma prima do Duarte, mas ficaram tanto tempo lá em casa, sem ela me as pedir de volta, que sei lá, pensei que ela já não as queria), o meu carro topo de gama, etc etc.

Não sei como é que as pessoas não são sensiveis ás minhas necessidades.


E além disso como dizia a minha mãe ladrão que rouba a ladrão, tem mil anos de perdão. E os Bancos são uns ladrões (Agora que penso nisso, a minha mãe no que diz respeito a fazer uma tramóia para limpar o sarampo ao meu marido, não falou em perdão.).


Mas bem...falando do dia-a-dia aqui na prisão. Continuo acordar por volta das 8h15m, tomo o pequeno almoço, se é que podemos chamar aquela coisa almoço, porque pequeno na verdade é. Vou para o recreio, e lá brincamos a cabra cega. Curiosamente calha-me sempre a mim ser a cabra cega. Mas eu não percebo porquê porque ate vejo muito bem.


Depois por volta das 11h45, vamos almoçar. Mas eu praticamente que nem toco na comida. Aquilo é nojento. Acaba o almoço e vamos outra vez para o recreio brincar a cabra cega, e curiosamente à tarde, também sou novamente a cabra cega.


Por volta das 17h45, em vez de ir beber o meu chá preto de Darjeeling, vou jantar porque é a essa hora que ele é servido. Como aqui o cozinheiro é sempre o mesmo, mais uma vez, volto a não comer quase nada. Mas até tem sido bom porque tenho perdido peso.


As 19h, é o recolher, e fecham as celas. Obviamente que para mim, continua a ser um quarto, porque é assim que lhe chamo, se bem que agora é mais uma camarata porque me puseram mais uma pindérica cá dentro.

São duas sem nível nenhum, que estão cá por suposto trafico de droga. Se ainda fosse cocaina, não havia mal nenhum, porque é uma coisa que não faz mal, que é tipo aspirina, agora droga, que só faz mal as pessoas é que não aceito nem suporto. Deviam ficar cá para sempre para aprenderem a não fazer mal aos pobres dos arrumadores.

Mas para além disso, não se sabem por no devido lugar. E se a que já cá estava era horrenda e pessima, porque se recusava ajudar-me a fazer a cama, esta ainda é pior, porque além de não ajudar ressona como o caraças e não prego olho.

Já viste o que tenho passado. Primeiro não dormia por causa da falta do meu chá preto de Darjeeling e da cama ficar por fazer. O Zé, todo querido, traz me o chá, só tinha ficado um problema que é dormir com a cama por fazer.

Vá, isso, já me estava habituar...agora metem-me esta ressonadeira profissional dentro do meu quarto, já não há quem aguente. Não prego olho, e depois no dia a seguir não sou uma cabra cega como deve ser. E não pode ser, eu onde estou gosto de dar nas vistas. Seja na prisão ou no jet-set.


Bem, querido diario estou muito cansada, e a pindérica, "a não ressonadeira", que dorme por baixo de mim, já está a dizer para eu apagar a luz.


Por isso boa noite e até amanha.


p.s 1: já estou aquecer a agua para beber o meu chá preto de Darjeeling


Este pedaço fictício do diário foi baseado nas noticias do Correio da Manha que aqui deixo os links, e que sugiro que leiam para perceber melhor o meu texto.




http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=231330&idselect=10&idCanal=10&p=200


http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=231389&idCanal=19




Sem mais deste vosso amigo, Anastercio Leonardo, que escreve de Portugal, esse País das Maravilhas

Anastercio Leonardo